A gente queria de outra forma... mas desistir não tava no cronograma: projeto Cultura da Zona Oeste.




No final de 2019 fui convocada pelo parceiro de trabalho e professor Felipe Nóbrega a compor um projeto chamado Cultura da Zona Oeste: Comunidade e sua Arte. A ideia era atuar nas escolas públicas dos bairros que compreendem essa localidade na cidade do Rio Grande-RS, utilizando a produção audiovisual para desenvolver processos educomunicativos, além de dar visibilidade para as manifestações artísticas do lugar.


Dessa forma, o objetivo era trabalhar com jovens, de 14 a 23 anos, residentes dos bairros, bem como com professores/as interessados/as em incluir a metodologia do cinema e/ou o conceito educomunicativo em suas aulas. Os/as envolvidos/as participariam de aulas expositivas e práticas e, ao final, desenvolveriam três documentários com temáticas eleitas pelo grupo. Os filmes, produzidos de forma coletiva e democrática pela comunidade, seriam exibidos para um grande público, incluso rodas de conversas para autoreflexão do mosaico de ideias que seriam promovidas.


Em primeiro lugar, é fato! Estar com a juventude para problematizar seus contextos e colocar todas as críticas, reflexões, paixões, e outras tantas outras coisas que podem surgir em meio a esse tipo de processo, num filme, é a coisa que mais gosto de fazer na vida, já descobri. Em segundo, tudo começou a tomar corpo quando fomos contemplados/as por meio da primeira edição do edital Pró Cultura, da Secretaria de Cultura do Rio Grande. E aí, sim, teríamos como comprar equipamentos, nos locomover, criar espaços de fala e escuta e tudo o mais que fosse necessário para concretizar o processo. Eu não tinha como estar mais feliz!


Passada as questões de papeladas, eis que chega algo completamente inesperado para todo o mundo. Um vírus que se alastrou por todo o planeta e nos demandou uma série de medidas protetivas - ainda que não totalmente eficazes - mas uma das mais importantes delas solicitava o distanciamento social. Isolamento, distanciamento... são comportamentos contrários ao processo educomunicativo. Este, que exige fundamentalmente o encontro com o/a outro/a, mostrava-se arruinado diante deste cenário.


O ano de 2020 passou e a equipe que foi se organizando ao longo dos meses precisou de muita paciência para redesenhar e não desistir do projeto. Certamente, já vislumbrávamos a alternativa virtual/híbrida, como vários outros lugares têm adotado para continuar existindo em meio ao caos. Porém, tínhamos esperança de que, não, não era possível que isso fosse durar tanto tempo. Além disso, conhecíamos a realidade dos/as estudantes das escolas públicas riograndinas: nem todos/as contam com acesso à internet. Decidimos por esperar. Logo, conseguiríamos colocar o nosso bloco na rua.


No primeiro mês de 2021, caímos na real. Pegamos o nosso cronograma e começamos a repensar a possibilidade de aulas virtuais que poderiam, ou não, contar com experiências presenciais, na medida em que as recomendações da Organização Mundial da Saúde-OMS reiterassem tal possibilidade. Entretanto, isso não aconteceu. Na verdade, ocorreu o contrário. Hoje, dia em que pela primeira vez consigo escrever sobre a oportunidade de atuar num projeto como esse, o Brasil bate mais um recorde no número de casos de Coronavírus, registrando mais de 90 mil infecções confirmadas da doença e mais de 2 mil mortos/as.


Os dados acima são do levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), mas a responsabilidade é de todo/a aquele/a que não parou se quer para pensar que algumas mudanças como usar uma máscara, higienizar objetos, lavar as mãos, diminuir drásticamente o contato com outras pessoas - salvo por aqueles/as com necessidade de trabalhar - e respeitar o discurso que cientistas do mundo inteiro ainda não cansaram de bradar por todos os cantos, é de extrema relevância para passarmos pela fase terrível que vivemos, agora, há um ano.


Por outro lado, e pior ainda, fica também bastante difícil educar uma população quando temos a frente do País um homem que teima em usar sua influência para divulgar achismos aliados à questões econômicas - como a distribuição de uma medicação já comprovadamente ineficaz para o controle do vírus, a famosa cloroquina - e se esforça para dar fortes braçadas contra a maré de resoluções que estão minimizando os casos da doença em todas as outras nações. Jair Bolsonaro, sem dúvida, colabora todo dia para colocar o Brasil entre os países mais problemáticos na pandemia. No ranking mundial, já somos o território com mais mortes diárias por Covid-19.


Por isso, ao contrário do que nosso presidente pensa, trata-se de uma calamidade pública. Invariavelmente, cada um/a de nós perdeu, ou conhece alguém que tenha perdido, um/a familiar ou amigo/a para o vírus. E, ainda que tenhamos recebido a notícia da vacina, tudo está se desenvolvendo da forma mais lenta possível e não estamos nem perto de resolver esse grande problema que promete seguir ainda por meses a fio.


Pois bem, e como ficam nossos planos, nossos projetos? Vamos indo da maneira que dá, pensando em proteger a nós e a todos/as da melhor maneira possível, porém sem perder a esperança de que logo poderemos ter a nossa vida "normal" de volta. Com certeza, o impacto gerado, tanto na economia como em nossas relações sociais, implicam alterações gigantescas no nosso cotidiano daqui para a frente, para o resto de nossas vidas. Por outro lado, aqueles/as que podem, que ainda têm força, saúde e recursos, devem continuar buscando maneiras de estar perto, de uma forma diferente, é claro, de ser inventivos/as, de botar a cara, ainda que de forma virtual.


E é nesse sentido que escolhemos não desistir do projeto Cultura da Zona Oeste. Mesmo cientes de que não teríamos capacidade de atingir a maior parte do nosso público-alvo, demos início às oficinas virtuais em fevereiro, com uma aula aberta sobre Educomunicação; fizemos encontros para organização e inscrições, que são gratuitas; recebemos convidados/as, como atores/atrizes sociais importantes para os bairros; realizamos nossa primeira aula para os/as inscritos/as; escutamos experiências de outros/as profissionais da área - tudo por meio de plataformas virtuais. É a maneira como sonhamos? Não mesmo. Como deveria ser para entrar em contato com a comunidade de maneira mais profunda, estimulando talentos escondidos e visibilizando pontos focais importantes para a criação de uma agenda educomunicativa efetiva? Nem perto disso.


Mas é a única possibilidade de continuar olhando para a frente nesse momento de crise, imaginando que, até o final do projeto, ainda vamos poder encontrar cada um/a que tem aparecido nos encontros, conversar pessoalmente, quem sabe, começar tudo de novo... gravar um filme juntos/as, de verdade... olho no olho, briga a briga (daquelas que sempre ocorrem nas produções audiovisuais, seja por diferenças estéticas ou porque esse/a ou aquele/a não toma café sem açúcar... cotidiano totalmente saudável para o processo evolutivo do filme). Dos conflitos é nascem as melhores ideias!


Por isso, não podemos dizer que estamos satisfeitos/as. Como primeira oficineira da turma e uma das responsáveis pelas aulas teóricas dessa primeira fase virtual, gravei minha aula sozinha, em casa, com o celular mesmo... editei pensando em desenvolver uma sensação de interação possível com quem fosse assistir - e está aí a justificativa das minhas gracinhas sem graças durante o vídeo. E dessa forma, o processo tem se desenvolvido com esta dinâmica: todos/as assistem aos vídeos e depois conversamos por Google Meet, por volta de 40/50 minutos, onde combinamos exercícios que possam ser feitos em casa, tiramos dúvidas e conversamos sobre cinema e a vida.


Estamos partindo agora para o funil de formação da equipe de gravação do documentário. E todo esse texto, na verdade, além de ser um desabafo particular, é também um convite: se você está aí na sua casa, ainda que extremamente cansado/a dessas interações virtuais, buscando formas de prencher o tempo de enclausuramento, precisando conversar com seres que não seu cachorro, papagaio, gato... e ainda por cima teve a pachorra de ler esse texto até aqui, quem sabe não vale a tentativa de fazer parte do nosso grupo? Mesmo que não more na Zona Oeste, vale compartilhar suas ideias com a gente e auxiliar em etapas que não, necessariamente, demandam deslocamento ou conhecimento profundo sobre os bairros... tem sempre lugar para todo o mundo!


E para falar a verdade, mesmo que bastante triste com o formato diferente, obrigatório, toda semana temos o compromisso de avançar mais um pouquinho nos nossos planos. Para isso, compartilhamos impressões, referências, possibilidades estéticas e tem sido bem legal! Pode ficar melhor ainda se, até o momento da "ação", mais para o final do projeto, já existir a possibilidade de nos encontrarmos com segurança.


Nesta próxima quinta-feira (25), vamos definir a equipe de gravação, por funções. Então, é a última oportunidade de receber pessoas novas no projeto. Depois dessa data, as aulas vão acabar ficando bem mais específicas e cada integrante já terá o seu compromisso com o filme. Depois disso, é mão na massa mesmo: criar argumento, pesquisar, escrever roteiro...


Não podemos prometer que as oficinas técnicas, presenciais, irão ocorrer. Principalmente para pessoas que podem vir a se inscrever de outras localidades. Ainda assim, é um ponto de encontro para discutir e colocar a cabeça para funcionar por uma boa causa: conhecer artistas incríveis da Zona Oeste de Rio Grande e contar suas histórias, para e diretamente com, eles/as! A primeira aula, deixo abaixo. As próximas você encontra no Canal do YouTube da nossa produtora e também nas redes sociais e páginas do próprio projeto, promovidos pela equipe, como o Instagram, Faceboook e YouTube.



Procurem ignorar a minha falta de desenvoltura. Se a gente tiver oportunidade de se conhecer pessoalmente, o café é por minha conta!



Rachel Hidalgo

Jornalista, educadora ambiental e produtora audiovisual



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